n°.09 - 06/2017

Os animais silvestres exercem papéis importantes para a manutenção do equilíbrio na natureza, que muitas vezes são desconhecidos pelas pessoas.  O Estado da Bahia tem  o privilégio de possuir uma vasta biodiversidade em seu território formado por  Biomas como o Cerrado, a Caatinga,  a Mata Atlântica e seus ecossistemas associados (Manguezais e Restinga), e  muitas espécies de animais silvestres estão inseridas nesses locais.

Espécies de cnidários, moluscos, peixes, crustáceos, insetos, aracnídeos, répteis, aves e mamíferos fazem parte das paisagens naturais do nosso Litoral sul, e desempenham importantes funções ecológicas em seus habitats que possibilitam a manutenção da vida em seus diversos níveis, evitando o desequilíbrio ecológico - termo tão comum em nossa realidade atual.

Manter animal silvestre em cativeiro sem a devida autorização dos orgãos competentes é crime!A existência da cobertura vegetal e diversidade genética da flora local, dependem diretamente da ação de alguns integrantes da Fauna Silvestre, tendo os insetos voadores e pássaros como maiores protagonistas dessas ações pois com suas estratégias de obtenção de alimento em busca do néctar das flores, procedem a polinização, carregando involuntariamente os grãos de pólen em seus corpos e permitindo que esses grãos fecundem flores de outras árvores da mesma espécie em áreas diferentes. As aves e mamíferos frugívoros são considerados os "plantadores da mata" pois alimentam-se dos frutos nativos e procedem a dispersão das sementes pelas fezes em todas as áreas de sua existência. O controle populacional é outra importante função dos animais silvestres na natureza, pois eles integram uma cadeia alimentar bem organizada, onde os consumidores primários dependem da flora em equilíbrio para sobreviverem pois são animais herbívoros e servem de alimento para os consumidores secundários (algumas espécies de serpentes,corujas e mamíferos carnívoros de médio porte) que por sua vez são predados pelos consumidores terciários ou os chamados "animais topo de cadeia" representados pelas aves de rapina, répteis e mamíferos carnívoros de grande porte.

Nessa perspectiva os animais devem ser preservados na natureza, sendo inclusive amparados por Leis de proteção Federais e Estaduais (Lei Federal  nº 9.605/1998, Lei Complementar nº 140/2011, Lei Estadual Bahia 12.377/2011).

*André Nascimento é Biólogo (CRBio 105.181/08-D) e Gestor Parque Estadual Ponta da Tulha
Técnico em Meio Ambiente Recursos Hídricos - INEMA


Entrevista Seleção Natural

Desde 2013 a empresa de consultoria Seleção Natural está executando o Programa de Conservação da Biodiversidade na região da Barra do Tijuípe, contemplando atividades relacionadas a ecologia da paisagem, inventário de 13 grupos de fauna de vertebrados e invertebrados terrestres e aquáticos continentais e caracterização secundária da riqueza de espécies e do status de conservação dos tubarões e raias.

O projeto envolveu mais de 43 pessoas entre pesquisadores e técnicos de campo e já inventariou mais de 980 tipos de animais, sendo diversos ameaçados, raros e ainda espécies não descritas pela ciência. Em 2016 foi iniciado o monitoramento populacional numa faixa de 50 km2 do litoral ao Parque Estadual da Serra do Conduru, buscando encontrar onde estão e quantos são os gatos silvestres, mutuns-do-bico-vermelho e primatas ameaçados da região, através de ações participativas de amostragem com armadilhas fotográficas e em transecções, ações que abrangem áreas do PESC e envolveram a comunidade do entorno.


O PESC a Notícia conversou com a equipe da Seleção Natural, Rodrigo de Almeida Nobre, Christine Del Vechio Koike e Ediney Santos dos Reis (Dedé), para entender o projeto e seus objetivos.

PESC – Desde 2013 vocês estão trabalhando na região da Barra do Rio Tijuípe com o Programa de Conservação da Biodiversidade. Como foi escolhida a área? 
Rodrigo – A escolha não foi nossa! Fomos convidados por filantropos interessados na conservação da biodiversidade da região. Estamos iniciando o quarto ano do Programa e o que buscamos inicialmente foi inventariar o máximo de espécies de 14 grupos de animais, coletando informações sobre eles nesse ambiente, que podem servir como base para futuras ações de uso, manejo e monitoramento. Essas informações estão disponíveis e acessíveis a qualquer interessado, já que o Programa tem interesse na utilização, no compartilhamento e divulgação dos dados levantados.

Imagens capturadas pelas câmeras durante o monitoramento.PESC – E quais informações surpreenderam vocês?
Rodrigo – Na primeira etapa, ainda com o trabalho restrito à foz do Rio Tijuípe, não vimos nenhum sinal de gatos silvestres e raros registros dos macacos (exceto os saguis), o que nos deixou curiosos em saber onde eles se encontravam. E para nossa surpresa, vimos dois mutuns-do-bico-vermelho, espécie ameaçada de extinção e com pouquíssimos indivíduos na natureza, e resolvemos investigar se haviam mais indivíduos ou grupos na região.
Christine – A pesquisa sobre onde estão os animais foi feita numa área de 50 km² entre o Parque Estadual da Serra do Conduru e a barra do Rio Tijuípe, que foi “dividida” em quadrados de 1km² onde, por meio de sorteio, instalada uma armadilha fotográfica, que nada mais é do que uma câmera automática, e é instalada na altura do solo para tirar fotos dos animais na mata. Ficamos surpresos com a variedade de espécies encontrada, informação bastante positiva para uma área de corredor ecológico.  
Rodrigo – As câmeras são instaladas por 20 dias nos locais sorteados, retiradas por 40 a 60 dias e depois recolocadas nos mesmos lugares, por mais 20 dias. No intervalo entre as duas instalações, nós emprestamos as câmeras para que moradores da região as coloquem nos locais onde eles acham que os animais aparecem.

PESC – E como foi o envolvimento da comunidade com o projeto?
Rodrigo – Quando o projeto começou, não planejamos a medição do envolvimento das pessoas da comunidade com a conservação desses animais, por isso não temos hoje uma métrica para saber se o projeto promoveu esse impacto, mas esse envolvimento é esperado com as atividades do projeto, que aproximam as pessoas das espécies avaliadas em seções de triagens de fotos e com a possibilidade de utilizar as armadilhas fotográficas em localidades onde sabem que estas podem ser ocorrer. Além disso, por sugestão do Dedé nós apresentamos resultados e fotos no Sarau Serra Viva, aproximando as pessoas dos dados que já coletamos.
Christine – Os trabalhos de campo para instalação e retirada das câmeras foram realizados com o acompanhamento de moradores do local, conhecedores da mata e dos hábitos dessas espécies e que são grandes parceiros para o sucesso da pesquisa. O Dedé, por exemplo, acompanha o trabalho desde o início e é um apoiador da conservação.
Dedé – Eu não tive nenhuma dificuldade de usar os equipamentos, achei fácil, aprendi rápido.

PESC - Dedé, como foi para você participar desse trabalho?
Dedé –  Eu aprendi muito com o projeto. Eu cortei madeira e cacei no passado, é comum isso aqui na comunidade, mas desde que comecei a trabalhar na Barra do Tijuípe, passei a ver a população de bichos aumentar porque a caça diminuiu, comecei a ver de novo paca, catitu, ouriço-caixeiro, tatu, jiboia e outros bichos chegando perto da fazenda. Eu mudei a forma de ver os animais. Antes eu atraía eles pra comer e agora eu quero é cuidar deles, porque a convivência tem que ser de parceria.
Rodrigo – O Dedé tem uma visão de que as informações sobre os animais, onde eles estão, precisam chegar na comunidade para mostrar que é interessante conhecer quais os bichos que estão aqui, perto deles.
Dedé – E os relatos de onça, de jaguatirica na mata, ninguém da geração de meus pais e meus avós conseguiu provar. Agora, com o projeto, a gente tem foto, sabe onde o bicho andou, que horas, se é macho ou fêmea. Isso tudo deixou de ser história de caçador.

PESC – E os próximos passos?
Rodrigo – A pesquisa para descobrir onde estão os animais só termina em 2018, mas até lá já temos muitos dados coletados dos inventários e ecologia da paisagem que podem ser usados para fundamentar ações de uso, manejo e conservação da biodiversidade da região. Todo o material da primeira fase do programa está disponível para consulta no site da Seleção Natural (www.selecaonatural.net).
Christine –  O projeto é o pontapé inicial para milhares de pesquisas que podem ser feitas na região. São muitas espécies encontradas, um universo enorme de possibilidades.

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Expediente:
Informativo mensal do Parque Estadual da Serra do Conduru - Projeto Amigos do PESC: fortalecimento da Gestão. 50 exemplares, afixados nas Comunidades do entorno do Parque. Repórteres: Ednaldo de Souza; Iuri Ribeiro; Rosalvo dos Santos; Thalles Santana. Serra Grande, Uruçuca/BA. Publicação: Makak. Apoio: INEMA; Mecenas da Vida - Patrocínio: Instituto Arapyaú. Contato: pescanoticia@parquedoconduru.org

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